Se o candidato da violência ganhar… Por Mãe Stella de Oxóssi


Se o candidato da violência ganhar… Por Mãe Stella de Oxóssi


Jair Bolsonaro. Foto: EBC

POR MÃE STELLA DE OXÓSSI, uma das mais importantes figuras das religiões afros do Brasil
Se o candidato da violência ganhar,
para mim, nenhum xirê será mais o mesmo.
Não vai ser possível olhar meu irmão na roda e reconhecer nele, aquele que ajudou a eleger um racista.
Para mim, nenhum ritual será mais o mesmo.
Nem as águas de Oxalá, quando a casa fica em silêncio, os passos quietos, Oxalá no poço, torturado.
Não será possível, sob o alá de um sofredor, olhar minha irmã no rosto e reconhecer nela
aquela que ajudou um torturador chegar ao poder.
Nenhuma fogueira de Xangô queimará do mesmo modo.
Nas chamas do orixá justiceiro,
será difícil abraçar qualquer irmão que tenha ajudado a injustiça a se espalhar por nosso país.
Nenhum Olubajé será mais o mesmo.
Quando o banquete for distribuído na folha de mamona, como recebê-lo de quem ajudou
a eleger um homem que ampliará a fome de comida e significados?
Nenhuma celebração das yabás será mais a mesma.
Na comemoração das mulheres ancestrais negras, com ver a casa cheia de mulheres onde muitas ajudaram a eleger um misógino?
Nenhuma festa de erê será a mesma nos terreiros. Como festejar a infância se ali, arrumando as jujubas e os suspiros, verei também os que ajudaram a eleger um homem que faz a mão de uma criança virar arma?
Nenhuma função de caboclos será a mesma nos terreiros, para mim.
Como cantar os pontos mais lindos para Jurema, Tupinambá, Sete Flechas, Pena Verde, Cobra Coral, junto com irmãos e irmãs que ajudaram a eleger um homem que acabará com o pouco que resta das terras indígenas?
Como deitar na esteira ao lado do meu irmão negro que, votando contra si mesmo, ajudou a acabar com a política de cotas sociais no país?
Justo ali, em nossa casa, onde muitas famílias negras se alegravam, dia desses, por terem conseguido que uma filha fosse a primeira da família a concluir o ensino superior graças as cotas?
Como lavar os pratos de meus irmãos e irmãs pensando que ali comeu alguém que, mesmo preocupado com seu filho negro voltando para casa,
ajudou a eleger um homem que prometeu armar uma sociedade onde as principais vítimas são os jovens negros?
Como arrumar o acaçá em paz sabendo que a paz que já nos faz tanta falta desaparecerá para nós?
Como trocar bençãos com meu irmão ou irmã gay e não me atordoar com seu voto em um homofóbico declarado?
Ou não me atordoar com aqueles que deviam proteger seu irmão do crime de ódio, mas também votaram no homofóbico?
Como dançar, em torno de atabaques que trazem o choro dos ancestrais negros e negras?
Mas trazem também sua coragem para enfrentar os senhores brancos e seus chicotes?
Como então dançar junto a quem ajudou a eleger aquele que disse que os negros hoje não servem nem para procriar?
As palavras foram espatifadas em cacos finos de vidro. Elas cortam tanto a língua de quem fala como
o inatingível ouvido do outro, da outra.
O sentido de tudo está ferido e sangrando.
Ao menos dentro de mim, mesmo que o nosso candidato ganhe.
Uma vez, meu Pai de Santo, Daniel de Yemanjá, perguntou: “vc sabe porque um iaô carrega a folha do Pèrègún na saída de sua iniciação? Vc sabe porque na maioria das casas de santo tem um Pèrègún na porta?” Eu respondi que não e ele me disse: “o Pèrègún é o alicerce, a coluna de todo o iniciado. Ela está também nas casas de santo para mostrar o caminho toda vez que você se perder. Não se perca do Pèrègún e não deixe que ele te perca.”
Que nunca nos falte então as folhas do Pèrègún e que, ainda que nos percamos, ele sempre nos traga de volta o sentido.
Exu Onan também nos abrace, erga e seja caminho todos os dias, porque amanhã: resistiremos!

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