A operação militar dos EUA na Amazônia está sendo vista como traição pelo Exército Brasileiro

Os americanos estão chegando, e eles vêm fardados. O desembarque será no coração da Amazônia, em Tabatinga, na tríplice fronteira entre Peru, Brasil e Colômbia. Ficarão por lá sete dias, entre 6 e 13 de novembro. O convite foi feito pelo Exército brasileiro e a operação faz parte do projeto AmazonLog – um exercício militar inspirado numa atividade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), realizada em 2015, da qual o Brasil foi um dos observadores.
O convite causou cizânia entre os militares. A ala nacionalista chiou. A região é considerada estratégica do ponto de vista dos interesses nacionais por concentrar a maior biodiversidade do planeta e ser fonte de recursos hídricos e reservas minerais. A proximidade irritou especialmente os oficiais da reserva. À boca pequena, via e-mail, deixaram claro o grau de insatisfação: “Convidar as forças armadas dos EUA para fazer exercícios conjuntos com nossas Forças Armadas, na Amazônia, é como crime de lesa-pátria. Ensinar ao inimigo como nos combater na selva Amazônica é alta traição.
Oficialmente, o Exército brasileiro nega que a intenção seja criar uma base multinacional em plena Floresta Amazônica, ainda que esta tenha sido um dos subprodutos da operação da Otan, realizada na Hungria, há dois anos. Lá, a operação foi militar; aqui, é descrita como uma “cooperação de paz e ajuda humanitária comum em áreas remotas e desassistidas”, ainda que a região seja visada pelo narcotráfico como rota de passagem.
Mudança de rota
Ainda que a operação AmazonLog não tenha sido a primeira a colocar lado-a-lado militares brasileiros e americanos no país – às vésperas das Olimpíadas no Rio de Janeiro, as Marinhas dos dois países fizeram uma atividade conjunta com foco no combate ao terrorismo -, ela vem à reboque de outros acordos militares assinados entre Brasil e Estados Unidos, e que sinalizam uma mudança de rota nas relação bilateral entre os dois países.
“No fim da Guerra Fria, o Brasil se deparou com um país (EUA) que era aliado estratégico e que, de repente, começou a agir de forma totalmente independente, como superpotência única. Isso provocou uma reação de hiperdefesa da Amazônia e de afastamento”, avalia o cientista político João Roberto Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa.
Em março último, o comandante do Exército Sul dos Estados Unidos, o major-general Clarence K.K Chinn, recebeu a medalha da Ordem do Mérito Militar. Na ocasião, visitou instalações do Comando Militar da Amazônia – uma demonstração clara de que a doutrina de defesa da Amazônia perdia força, depois de ter dominado durante décadas o pensamento corrente nas forças armadas brasileiras.
Martins não acredita que o gesto de aproximação entre Temer e Trump redunde em liberar a estratégia militar de guerra na selva, mas tem um “peso simbólico” importante, já que representa uma ruptura com a política de defesa do Brasil.
Especialista em assuntos estratégicos e editor da Agência de Notícias DefesaNet, Nelson Düring, considera um retrocesso criticar a parceria entre os dois países: “Até hoje, não descobri qual a razão de tanta restrição aos EUA por uma parte grande dos militares. O exercício trata-se de uma interação com outras forças militares. Até recentemente, não eram aceitos militares estrangeiros no Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs). Agora, já tivemos americanos, europeus e até chineses. Cabe ao Brasil preservar os seus segredos. Muito do que poderia ser mantido em sigilo antes é hoje devastado pelos satélites de observação”.

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